Variação e Seleção: Por Que Agimos Como Agimos?


Você está acostumado a ler textos relacionados à Psicologia e encontrar assuntos curiosos ou interessantes, mas que no final das contas têm poucas conclusões práticas. E daí que existe uma memória de curto prazo e uma memória de longo prazo? O que eu faço com isso? Qual é a aplicabilidade dessa informação para o dia a dia das pessoas? Tentemos seguir um caminho diferente, portanto.

Muitas vezes, nos encontramos em situações nas quais precisamos controlar o comportamento de alguém deliberativamente. Uma criança altista que se auto lesiona, um esquizofrênico em surto que pode acabar matando alguém, um depressivo que não consegue nem mesmo se alimentar, mas também existem situações menos drásticas em que precisamos controlar comportamentos (e vale a pena ressaltar, controlar não significa apenas inibir, mas emitir também): o procrastinador que precisa tomar uma atitude e começar o trabalho, precisa, nestes termos, controlar (emitir) seu comportamento; a pessoa tímida que precisa fazer um discurso em público ou se aproximar de alguém que acha interessante, precisa controlar (emitir) seu comportamento de alguma forma; aquela pessoa que precisa controlar (inibir) o que faz quando está furiosa; ou mesmo aquela pessoa que é submissa demais e não consegue confrontar ninguém, nem mesmo para se defender, também encontra-se em uma situação em que se beneficiaria se conseguisse controlar melhor seu comportamento.

A astrologia, e tantas outras fontes de explicação das ações humanas, não ajudam muito quando temos um problema prático, e, cá entre nós, temos problemas práticos o tempo todo. É nesse aspecto que um tipo de psicologia pragmática mostra-se importante.

Quando tentamos explicar por que alguém agiu de certa forma, nós nos perguntamos pela causa daquela atitude e, por influências de pensadores modernos na nossa cultura (Newton, Descartes, Hume, etc.) nós pensamos em termos de uma causalidade linear. O exemplo clássico é a bola que foi colocada em movimento pela colisão com outra bola de bilhar. Se esse tipo de causalidade cumpriu muito bem o seu papel na explicação de fenômenos no campo da Física moderna, hoje em dia, tentar explicar o comportamento humano usando-o parece insatisfatório. Explicações em termos de estímulo-resposta parece igualmente rudimentar.

Uma alternativa foi fornecida pelo psicólogo estadunidense conhecido como B. F. Skinner. Não, não é o dr. Freud; é Skinner mesmo. Apesar de ter começado a estudar experimentalmente o comportamento dos organismos lá pelos anos de 1930, foi em 1981 que Skinner[1] publicou um artigo na famosa revista Science, apresentando sua maneira revolucionária de explicar por que uma pessoa age do jeito que age: nosso comportamento é selecionado pelo meio-ambiente, seja ele físico ou social.

Quem aí se lembra da teoria de seleção natural de Charles Darwin, o modelo de explicação é análogo: nossas ações produzem consequências no nosso ambiente e, essas consequências selecionam certos comportamentos, aumentando sua frequência (reforçamento), o que significa que a probabilidade de você repetir aquela ação no mesmo contexto aumenta; ou, caso o comportamento não seja selecionado, a probabilidade de você repetir aquela ação diminui (extinção).

Imagine, por exemplo, que você deparou com um tipo de porta que nunca abriu antes, e precisa passar por ela. Você segura a maçaneta e gira para a direita... Porque, anteriormente, em situações semelhantes, esse foi o comportamento selecionado; todas as outras possibilidades foram extintas do seu repertório comportamental. Em termos mais simples: nós tendemos a repetir aquilo que dá certo e a não repetir aquilo que não funciona.

Tentemos explicar outras situações. Todo mundo tem aquele amigo que faz de tudo para chamar a atenção da galera, aquele que sempre quer ser o centro das atenções. Já perguntou-se por que ele age assim? Seguindo nossa linha de raciocínio, é porque, quando agiu assim em situações anteriores, o grupo deu atenção para ele, selecionando dessa forma seu comportamento (cuja alta frequência chega a ser irritante). Agora, qual a aplicação prática disso: o que você prevê que ele fará quando você e ele se depararem com um grupo de amigos? A probabilidade é muito alta do cara tentar fazer de tudo para ser o centro das atenções. Se isso te irrita, você poderia, por exemplo, conversar com ele longe do grupo.

Um aluno que vagabundeia o semestre inteiro, mas passa as madrugadas que antecedem os exames finais estudando e consegue passar nas disciplinas tem esse comportamento selecionado e mantido em alta frequência. Dificilmente ele fará de outra forma enquanto isso continuar funcionando. Enquanto outras consequências não acontecerem com o comportamento do procrastinador, dificilmente ele começará a agir diferente, e isso nada tem a ver com sua força de vontade. Aliás, quando entendemos como alguns dos nossos comportamentos foram sendo selecionados durante nossa história de vida, explicações fictícias como personalidade, força de vontade e consciência vão perdendo seu lugar.

Um relacionamento abusivo, em que uma das pessoas é constantemente humilhada, mas ainda assim não consegue romper o relacionamento pode ser o caso em que essa pessoa, submetendo-se ao parceiro ou parceira, ainda consegue alguma atenção/carinho/afeto, ou seja, seu comportamento submisso foi selecionado. As consequências que selecionam o comportamento não são boas ou ruins por natureza (como, aliás, nada o é); elas apenas são eficazes ou ineficazes. Se essa pessoa nunca vier a agir diferente para que outras formas (mais saudáveis) de comportamento venham a ser selecionadas, talvez ela tenha relacionamentos abusivos para o resto de sua vida.

Como conclusão, apresento o prometido: o que eu faço com esse conhecimento? Comece escolhendo algum comportamento seu, e pergunte-se como ele foi selecionado na sua história de vida. Você age assim porque, em algum momento, isso deu certo e agora, em situações semelhantes, você tende a repetir aquilo que funcionou. Quando descobrir isso conseguirá prever, com algum grau de sucesso, o que você fará quando uma situação semelhante acontecer. Quer mudar seu jeito de agir nessas situações? Tente fazer algo diferente e fique atento às consequências... São elas que selecionam nosso comportamento.

Um adendo antes de terminar: Psicologia não é uma ciência exata, mas probabilística. Comportamentos que seguem uma fórmula de causa e efeito, estímulo e resposta, são muito rudimentares (do tipo, se você espetar seu dedo, sentirá dor). Quando um psicólogo estuda algum comportamento, ele tenta investigar como aquele comportamento foi selecionado e como múltiplas variáveis interferiram nesse processo, e como uma centena de outras variáveis interferem no comportamento presente. Essa lógica selecionista inverte a forma de explicação que estamos acostumados (são as consequências que selecionam o comportamento futuro, e não as causas provocam o comportamento presente); é contra intuitiva, mas é a que até agora apresentou mais consequências práticas. Fiquemos com ela, até outra melhor surgir. Até lá, nunca se esqueça: variação e seleção.

[1] Skinner, B. F. (1981). Selection by Consequences. Science, 213, 501-504.

Link do artigo traduzido: http://www.usp.br/rbtcc/index.php/RBTCC/article/view/150/133

Roberto Veloso (Ex-Morador)

Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná

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